Vacinar ou não vacinar, eis a questão!

A procura pela vacina contra o Covid-19 tem envolvido cientistas em diversos países e espera-se que seja descoberta, testada e comprovada com brevidade.

No entanto, quando se trata de vacinas, três grupos de pessoas têm sido apontados pelos estudos científicos. O primeiro é composto pelos que aceitam e se submetem à vacinação sem colocarem obstáculos. Entendem o valor da vacina e demandam pela imunização, não só como direito, mas por entenderem sua responsabilidade na transmissão de doenças quando, podendo estar vacinados, não o fizeram, vindo a contagiar outras pessoas.

O segundo grupo, ao contrário, opõe-se à vacinação. Os motivos do movimento antivacinal vão desde alegação de invasão ao corpo, autonomia das decisões dos pais frente aos cuidados com os filhos, medo de efeitos posteriores adversos e até a baixa percepção do risco da doença (muitas vezes porque a doença está sob controle justamente pela vacinação em massa outrora realizada) (5).

Ao longo da história, vários foram os episódios de surgimento desse movimento antivacinas. No Rio de Janeiro, por exemplo, aos idos de 1904, ocorreu o episódio conhecido como “A revolta da vacina”, um protesto contra a obrigatoriedade da vacinação em massa, colocada em prática pelo então Diretor Geral de Saúde Pública, Oswaldo Cruz, contratado para combater a varíola (1) .

Entre esses dois blocos, dos que aceitam vacinas, sem dúvidas e dos que recusam vacinas, também sem dúvidas (3), há um terceiro bloco, estudado especificamente por um grupo de trabalho da Organização Mundial de Saúde (5). O comportamento intermediário é visto como uma hesitação frente às vacinas. Há dúvida, incerteza, atraso ou relutância sobre permitir sua aplicação ou submeter-se a ela (4).

A esse fenômeno ou comportamento a Organização Mundial de Saúde denominou hesitação vacinal, definindo como o atraso na aceitação ou na recusa das vacinas recomendadas apesar de sua disponibilidade nos serviços de saúde (5). Assim como o movimento antivacinal, a hesitação vacinal é uma ameaça aos programas de imunização, porque pode resultar no recrudescimento de agentes patogênicos e em surtos de doenças (4).

A hesitação vacinal é um fenômeno complexo e que ocorre em contextos específicos, variando no tempo, lugar e de acordo com o tipo de vacina (5). É influenciada por fatores como complacência, conveniência e confiança (3), o chamado “Modelo dos três Cs”, adotado pela Organização Mundial de Saúde para agrupar os determinantes.

Conveniência, o primeiro C, está associado à logística da distribuição, sendo necessário que a vacina alcance todo território (2). Engloba disponibilidade física, acessibilidade econômica e vontade de pagar, acessibilidade geográfica, capacidade de compreensão e atratividade dos serviços de imunização, quanto à qualidade do serviço (real e/ou percebida) e à importância dada à vacina em dado momento, local e contexto cultural (3).

Complacência, o segundo C do modelo, indica permissividade e até negligência. É um fenômeno típico de áreas onde houve decréscimo de doenças ao longo dos anos, passando uma falsa sensação de segurança, de desnecessidade de vacinar (3 ; 2). Isto contribui para o esquecimento ou desinteresse em tomar a vacina ou levar os filhos para vacinar. Desse modo, o sucesso anterior dos programas de imunização pode conduzir, paradoxalmente, a essa complacência, levando a crer que não são mais necessárias as medidas preventivas de vacinação(3).

Por fim, o terceiro C, confiança está associado à confiança ou falta dela em relação à eficácia e segurança das vacinas. Inclui a confiança nos profissionais de saúde e também nos motivos do Poder Público, ao indicar a necessidade da vacina.

A Organização Mundial de Saúde também agrupou os fatores que contribuem para a hesitação vacinal em três categorias: individual/grupal, influências específicas sobre a vacina ou vacinação e contextual.

Como fator individual ou grupal, entendem-se as influências subjetivas, as percepções e experiências pessoais sobre a vacina ou as influências de grupos, como família, comunidade ou integrantes de ambiente de convívio específicos na decisão. Dentre elas, a percepção sobre dor, cuidados pessoais sobre saúde e prevenção, visão da imunização como uma norma social questionável quanto sua necessidade. Nem sempre é uma avaliação racional baseada em evidências (5).

Nos fatores específicos, encontram-se situações como o tipo de imunização, se acompanhada de campanhas para vacinação em massa ou se são vacinas rotineiras, o horário de vacinação, seu custo, a atitude dos profissonais de saúde no atendimento, confiança na vacina e nos equipamentos de vacinação, o modo de administração das doses.

Como fatores contextuais, entendem-se as influências históricas, socioculturais, ambientais, políticas, econômicas, religiosas e de gênero. Cabe referir, entretanto, que a hesitação vacinal pode ocorrer independentemente de classe social e escolarização (2;3), já que estudos mostram que a alta escolaridade pode estar associada tanto à alta como à baixa aceitação vacinal. De igual modo, o movimento antivacinal vem se fortalecendo sobretudo em países de alta renda (2).

Outros exemplos de fatores contextuais são a influência de lideranças e os lobbies a favor ou contra as vacinas, a estrutura do sistema de saúde e as indicações de interesse de lucro na indústria farmacêutica.

Dentre os fatores contextuais, assume destaque para a hesitação vacinal a crescente importância da internet (2; 4). As pessoas procuram por informações na Web (4) e essas informações influem na decisão de tomar ou não tomar vacinas, vacinar ou não vacinar os filhos.

Sabe-se que nem sempre notícias verdadeiras e cientificamente demonstradas circulam pela rede. No entanto, a leitura dessas notícias é mais fácil do que a de um artigo científico para o público leigo e não se pode desconsiderar seu poder de convencimento. Outras vezes, as postagens ou notícias são verdadeiras, mas sua baixa qualidade informativa pode contribuir para a indeterminação na decisão de vacinar (3) .

Por isto, é importante que os profissionais de saúde pública também utilizem os veículos de comunicação, para transmitir informações científicas precisas e rigorosas sobre vacinas, esclarecendo riscos e benefícios, mas de modo facilmente compreensível pelo público em geral (4) . Isto pode diminuir o risco do reaparecimento de doenças, epidemias e até pandemias  de doenças, como sarampo, para as quais já se tem vacina. 

1 AS DOENÇAS do Rio de Janeiro no início do século XX e a Revolta da Vacina em 1904. Brasiliana Fotográfica, 5 abr. 2020. Disponível em:<http://brasilianafotografica.bn.br/?tag=seculo-xx>. Acesso em: 24 jun. 2020.

2 CARBINATTO, B. Epidemias invisíveis: as doenças além da Covid-19. Revista Super Interessante, 29 maio 2020. Disponível em:< https://super.abril.com.br/especiais/epidemias-invisiveis-as-doencas-alem-da-covid-19/>. Acesso em 24 jun. 2020.

3 MACDONALD, N.E, Vaccine hesitancy: Definition, scope and determinants. Journal Elsevier: Vaccine 33 (2015) 4161–4164. Disponível em:<https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25896383/. Acesso em: 24 jun. 2020.

4 ROSSELLI, R. MARTINI, M., BRAGAZZI, N.L. The old and the new: vaccine hesitancy in the era of the Web 2.0. Challenges and opportunities. Journal of Preventive Medicine and Hygiene. 2016 Mar. 57(1). Disponível em:<https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4910443/>. Acesso em: 24 jun. 2020.

5 SATO, A. P. S. What is the importance of vaccine hesitancy in the drop of vaccination coverage in Brazil? Revista de Saúde Pública, 2018;52:96. Disponível em: <https://www.scielo.br/pdf/rsp/v52/pt_0034-8910-rsp-52-87872018052001199.pdf>. Acesso em 24 jun. 2020.













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